03/06/14

PULSAÇÃO DA TERRA

Fundiu-se a roda do Sol
entre os cedros afilados,
Desfez-se em azuis rosados,
tinturas de tornesol.

Agora solenemente,
como um corpo que se enterra,
ao som de um sino plangente
desce a noite sobre a terra.

Campânula asfixiante.
Circula um terror nas veias.
Zumbem estrelas em colmeias
num céu alheio e distante.

Numa dormência de cova,
suspensa em leite de Lua,
toda a vida se renova
e a guerra continua.

Nas marés do protoplasma
flui, reflui, perene e forte.
Espreita as pegadas da morte,
persegue-a como um fantasma.

Cega e surda, impenetrável,
lateja, treva urdida,
essa coisa inevitável
que é a vida.

António Gedeão

Josélia Micael